Segundo Wechsler, a inteligência é concebida como um todo, sendo “a capacidade global do indivíduo para atuar finalizadamente, pensar racionalmente e proceder com eficiência em relação ao meio” (Wechsler, 1944).
A WISC é um instrumento clínico, cuja administração é feita individualmente e que tem como finalidade a avaliação da inteligência de crianças ou adolescentes, com idades compreendidas entre os 6 e os 16 anos e 11 meses, remetendo para a exploração do “funcionamento intelectual nos seus diversos aspetos”.
O desempenho do sujeito pode ser observado em três resultados compósitos: Quociente Verbal (aptidões linguísticas), Quociente de Realização (aptidões percetivo-espaciais) e Quociente da Escala Completa (somatório dos resultados padronizados dos subtestes). Assim, através da análise destes resultados, o psicólogo é capaz de perceber a qualidade do desempenho da criança ou adolescente, no que diz respeito ao conjunto de competências intelectuais.
Em relação ao Quociente Verbal, este avalia os processos verbais e o conhecimento adquirido (inteligência cristalizada). Já o Quociente de Realização, avalia a capacidade de atenção, memória, a aptidão motora ou a rapidez de processamento da informação (inteligência fluida). A soma dos resultados padronizados de ambas as subescalas, permite o cálculo do resultado do Quociente da Escala Completa.
Acresce ainda referir que este instrumento permite também avaliar três índices complementares, denominados “Índices Fatoriais” que abrangem os seguintes resultados compósitos: Compreensão verbal, Organização Percetiva e Velocidade de Processamento.
A Compreensão Verbal avalia as competências linguísticas, expressão do pensamento, formação de conceitos verbais ou de categorias, capacidade de síntese e de integração de novos conhecimentos; analisa ainda o conhecimento lexical e a elaboração de discurso; a capacidade de exprimir as suas experiências, a flexibilidade mental e a capacidade de adaptação social.
No que concerne à Organização Percetiva, esta avalia as aptidões do raciocínio não verbal e visuoespacial e as capacidades visuomotoras; memória visual e acesso ao léxico, capacidade de análise percetiva, integração da informação, capacidade de organização, coordenação e rapidez psicomotora. Ao nível das funções executivas, analisa a capacidade de resolução de problemas. Relativamente à Velocidade de Processamento, avalia a capacidade de associação de números a símbolos e a sua memorização, a capacidade de aprendizagem e memória cinestésica da sequência, discriminação percetiva, atenção visual e memória de trabalho.
A WISC apresenta como subtestes: Completamento de Gravuras, Informação, Código, Semelhanças, Disposição de Gravuras, Aritmética, Cubos, Vocabulário, Composição de Objetos, Compreensão, Pesquisa de Símbolos, Memória de Dígitos e Labirintos.
Importa referir que, embora se considere que os resultados desta escala determinem o comportamento inteligente, é fundamental ter em conta os fatores de natureza não intelectual como: motivação, impulsividade, ansiedade, traços da personalidade, entre outros. Estes fatores não são avaliados através da escala, mas influenciam o processo de avaliação. Deste modo, o psicólogo observa atentamente o comportamento da criança ou adolescente ao longo da implementação dos subtestes e considera a sua história de vida, em termos sociais e culturais, bem como historial médico.
Para que a criança ou adolescente se sinta confortável ao longo da realização das provas, o psicólogo proporciona um ambiente estruturado, seguro e agradável, sendo fundamental o encorajamento à adesão nas tarefas propostas e o reforço constante.
Esta escala pode ser utilizada em diversos contextos como educacional, clínica, neuropsicologia e forense.
Em que situações devo procurar uma ajuda especializada para avaliar o desempenho cognitivo com recurso ao instrumento WISC?
– Problemas no desenvolvimento – quando existe suspeita duma discrepância entre a sua idade cronológica e o seu desenvolvimento intelectual;
– Problemas de aprendizagem – para despistar se os problemas de aprendizagem se devem a fragilidades cognitivas, a níveis elevados de ansiedade ou a baixa resistência à distração;
– Défice de atenção – um protocolo de avaliação para despiste da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) deve incluir as provas da WISC que permitem determinar o índice de resistência à distração;
– Sobredotação – para determinar se o nível cognitivo se encontra num nível muito superior ao esperado para a sua faixa etária;
– Avaliação de prontidão escolar – para avaliar se uma criança apresenta competências cognitivas necessárias para as aprendizagens do 1º ciclo.
Quem pode administrar a WISC?
Uma vez que esta é uma escala que avalia o funcionamento cognitivo da criança ou adolescente, a administração deve ser efetuada por um psicólogo qualificado, com formação especializada.
Bibliografia:
Wechsler, D. (1991). WISC-III: Wechsler Intelligence Scale for Children (3rd ed.). The Psychological Corporation
Simões, M. (2002). Utilizações da WISC-III na avaliação neuropsicológica de crianças e adolescentes. Paidéia
Oliveira, A. (2024). O funcionamento neurocognitivo das crianças com fenilcetonúria. Universidade de Coimbra




